Eram 15h05 do dia 7 de dezembro de 1981 quando o Airbus A300 da extinta empresa aérea Cruzeiro pousou no Aeroporto Salgado Filho em Porto Alegre. Uma aterrissagem que não terminou bem. O avião, prefixo PP-CLA, chegava para mais uma escala do voo 940, Rio – São Paulo – Porto Alegre – Montevidéu – Buenos Aires, mas uma falha no sistema da aeronave quase provocou uma tragédia.
Segundo a Folha da Tarde da época, na escala em São Paulo alguns passageiros notaram fumaça negra saindo da turbina esquerda. Na chegada em Porto Alegre, ao tentar acionar o reverso esquerdo da aeronave, o piloto não teve resposta e o avião seguia acelerado pela (sempre) curta pista do aeroporto da capital gaúcha. A alternativa foi dar um “cavalo-de-pau” e jogar a aeronave para fora da pista. A manobra dos comandantes Salet e Donza deu certo e o PP-CLA foi parar em uma vala na cabeceira da pista, que estava sendo ampliada mas, por sorte, nenhum operário foi atingido. O avião transportava 148 pessoas e apenas uma saiu ferida, sem gravidade.
O Airbus A300 da Cruzeiro após o acidente.
Esse acidente foi tema de uma matéria no Correio do Povo de 12/08/2007, pouco tempo após o desastre do voo JJ 3054 com outro Airbus, um A320, da TAM, em São Paulo. Curiosamente, a causa dos dois acidentes foi a mesma: falha ao ativar o reverso. Para sorte dos passageiros de 81, o aeroporto de Porto Alegre tem uma boa área de escape, apesar de até hoje ser considerado um dos piores do país pela extensão da pista e as irregularidades no asfalto.
O PP-CLA no Aeroporto do Galeão, no Rio, em um dia normal.
Tanto que o avião da Cruzeiro não foi o único a parar na vala no fim da pista do Salgado Filho. Em 2000, um Boeing da falecida Transbrasil aquaplanou, deixando seis passageiros feridos.
A Cruzeiro do Sul foi incorporada pela Varig. Por sua vez, a tradicional empresa gaúcha faliu e foi adquirida pela Gol que, lentamente, está terminando com as operações da famosa marca que durante anos era sinônimo de aviação no Brasil mas que, por falhas administrativas, perdeu força.
Ponto final
A Cruzeiro também foi protagonista de outro fato curioso no aeroporto gaúcho. Uma das aeronaves da empresa, com a parte dianteira vazia, “empinou” com o peso dos motores na parte posterior. A foto é de Valter Azevedo e pode ser vista no site Airliners.net.
Não é sempre que temos algo sobre Federico Fellini em Porto Alegre. Mas de repente surgem iniciativas como a mostra Circo Fellini, realizada entre setembro e novembro, e permitem nos aproximar um pouco da obra do grande cineasta italiano.
O Maestro em seu picadeiro, comandando o circo (Foto: Divulgação)
Apesar de pequena, a exposição, realizada no Instituto NT de Cinema e Cultural, apresentou uma boa coleção. Além da exibição gratuita de suas obras, reuniu os desenhos utilizados por Fellini como rascunho para definir seus personagens e bastidores de filmagens, como as de 8 1/2. Num espaço maior, diversos livros sobre a obra do cineasta podiam ser bisbilhotados. Outros desenhos mais “ousados” foram exibidos numa sala separada, dentro de tubinhos como aqueles que se vendiam nos circos, como lembrança, com um foto no interior (esqueci completamente o nome do negócio... ô, memória!). Tudo isso tendo como som ambiente as trilhas compostas por Nino Rota para seus filmes.
Campanha de divulgação da mostra
Mesmo quem não sabia nada sobre Fellini sairia de lá percebendo o gosto dele pelo exagero. Estava presente na “fartura” ao desenhar Anita Ekberg (a quem chamava de Anitona, cuja imagem banhando-se na Fontana di Trevi nunca saiu da cabeça dele – e de muitos que viram “A Doce Vida”). O “volume” também está presente nos rascunhos que fez para as filmagens de “Amarcord”, numa parte do corpo admirada pelos brasileiros, e que, em uma das cenas do filme, enlouquece os adolescentes que ficam observando as jovens senhoras subirem em suas bicicletas. Ou então no grande nariz que marcava o personagem Casanova, interpretado por Donald Sutherland. Sem esquecer da grande quantidade de pessoas que ele conseguia colocar numa cena, criando uma verdadeira “baderna organizada”.
“Anitona” na famosa cena de “A Doce Vida”
Outro detalhe foi a escolha do local da mostra. A sede do Instituto NT é a reformada Casa Boni, um casarão no bairro Auxiliadora, projetado e construído pelo engenheiro italiano Armando Boni em 1922, como residência para sua família. Esse antigo palacete ajudou a criar um clima que não seria possível em outros locais culturais da capital gaúcha.
Para quem gosta de Fellini, 2010 será um ano especial, pelas comemorações de seus 90 anos de nascimento, no dia 20 de janeiro de 1920, em Rimini, cidade ao leste da Itália, banhada pelo mar Adriático, que já foi tema de post aqui no blog, também falando sobre o “maestro”.
Dois esportes populares e centenários. Duas situações semelhantes. Dois anos de diferença. Dois finais bem diferentes. Curiosamente, o mesmo estádio.
Outubro de 2007
Stade de France, Saint-Denis, França. Final da Copa do Mundo de Rugby. África do Sul x Inglaterra. Dois minutos do segundo tempo, 9x3 para os sul-africanos. O winger inglês Mark Cueto recebe livre na ponta e dispara em direção ao in-goal adversário, para marcar o try, o “gol” do rugby. Ele pula e alcança seu objetivo. A torcida inglesa já vibra, os comentaristas da TV também. Cinco pontos já estavam garantidos. Com os outros dois que poderiam vir do chute sempre certeiro de Jonny Wilkinson a Inglaterra assumiria a ponta no placar.
Mas o árbitro Alain Rolland interrompe a festa e pede o video ref, forma popular de “video referee”, nosso vulgo tira-teima. No entusiasmo da partida, torcida, TV e jogadores não perceberam que o pé de Cueto havia tocado na linha de lado do campo antes dele encostar a bola no in-goal. Apesar das reclamações, Rolland não deu o try. A África do Sul ganhou a partida por 15x6. Não fosse o aparato eletrônico, o troféu poderia ter ido pra outro lugar.
Uma consulta rápida e a correção de um engano que poderia mudar o resultado da Copa do Mundo de Rugby de 2007.
Novembro de 2009
Voltamos ao mesmo Stade de France, dois anos depois. Ao invés de rugby, futebol. Estamos em novembro de 2009 e França e Irlanda disputam a partida de volta da repescagem das Eliminatórias da Copa do Mundo de 2010, decidindo quem iria para o Mundial. A França havia vencido o primeiro jogo por 1x0 e a Irlanda devolveu o placar neste segundo embate.
Eis que aos 12 minutos da prorrogação, cobrança de falta para a França, a bola é alçada na área, Henry ajeita para Gallas marcar o gol de empate. Os irlandeses partem para cima do árbitro Martin Hansson e reclamam que o gol foi irregular pois o francês havia dominado a bola com a mão. O juiz nem considerou as críticas.
A TV começa a mostrar o gol de vários ângulos e se percebe que não houve um toque da mão de Henry na bola, mas sim dois. Não é jogada nem do vôlei, no qual seria marcado condução. A França conseguiu a classificação e à Irlanda restou reclamar. Pobre Giovanni Trapattoni, técnico da Irlanda, que outra vez voltou a sofrer na mão da arbitragem (ele era técnico da seleção italiana na Copa de 2002, eliminada pela Coreia do Sul em uma sequência de erros do equatoriano Byron Moreno, que apitava o jogo).
Será que o juiz levaria muito tempo para ver que o gol foi irregular?
Resistência
O rugby faz uso do vídeo em jogadas importantes. O tênis passou a adotar o sistema de vídeo e concedeu aos jogadores o direito de questionar a decisão do árbitro, num sistema semelhante ao que existe no futebol americano. Porque o futebol, o de origem inglesa, reluta tanto em adotar a solução tecnológica?
As últimas três semanas foram bem intensas para a arbitragem do esporte. Começou com o experiente Carlos Simon, que anulou um gol legal do Palmeiras contra o Fluminense no Rio. Passou pelo inexperiente Elmo Resende da Cunha que, em outro jogo do Palmeiras, dessa vez contra o Sport, trilou o apito achando ter um impedimento de um jogador paulista, os pernambucanos pararam, a bola entrou no gol e ele foi validado pois Cunha mudou de ideia no meio do caminho. Chegou ao último domingo, quando Sandro Meira Ricci anulou, e bem, um gol de Cláudio Luiz, do Naútico, contra o Flamengo. O problema é que ele levou cinco minutos para fazer isso, após uma reunião improvisada no meio do campo. E terminou com o lance de Henry ontem.
"Mão de Deus", como diz a capa do L'Equipe do dia 19, ou o olho do juiz mesmo?
Todas estas confusões poderiam ser evitadas se o árbitro tivesse a sua disposição um sistema de vídeo. Mas existe uma grande resistência em adotar essa prática. Para os críticos, prejudicaria o andamento da partida, tiraria emoção do jogo, deixaria o esporte muito “eletrônico”, não haveria o que falar do Maradona e sua “mano de Dios”, que não adiantaria nada pois até hoje não se sabe se a bola entrou ou não na decisão do Mundial de 1966, ou até que não teríamos tema para as conversas de bar durante a semana.
Penso diferente. O futebol chegou a um nível no qual falhas devem ser evitadas ao máximo. Errar é humano, a menos que o erro possa ser evitado. Não existe mais amadorismo para pensar que um engano de um árbitro seja comparável a falha de um goleiro ou na escalação do time por um treinador. São situações bem diferentes.
Não acredito que o jogo ficaria mais lento. Não seriam todas as partidas que precisariam do olho eletrônico e nem todos os lances. Não seria utilizado para definir quem cobra um lateral ou se houve falta no meio-de-campo. É um recurso para se utilizar quando houvesse dúvida sobre um gol ou pênalti, por exemplo, momentos cruciais numa partida.
Após a conclusão da jogada, o árbitro sinalizaria pedindo o apoio do vídeo. O quarto árbitro assistiria o lance e passaria sua decisão ao juiz. Se foi gol, bola no meio de campo. Caso contrário, tiro de meta. E o árbitro segue o jogo, tranquilo, sem ficar com o peso na consciência de ter errado ou não e, principalmente, por ter livrado sua mãezinha de ouvir poucas e boas.
Saiu o balanço da Feira do Livro de Porto Alegre 2009. E o número foi negativo. Uma queda de 16% nas vendas, somando 354.892 exemplares comercializados. É a primeira vez, desde 1997, que este número baixa de 400 mil. Em 2005, a Feira atingiu um ápice, com a venda de 530.978 livros. Desde então entrou em queda livre, edição após edição, como mostra o gráfico abaixo.
Gráfico de vendas da Feira do Livro de Porto Alegre entre 1997 e 2009. Dados da Câmara do Livro divulgados no Correio do Povo nos anos correspondentes.
A Feira do Livro e eu
A Feira mudou bastante nos últimos anos. Lembro que, quando ganhava mesada, juntava uma grana, fazia minha lista de livros e partia para a Praça da Alfândega aproveitar os descontos, enfrentando, sem problemas, o tumulto. Ainda que meu pai insistisse que não valia a pena se outras livrarias ofereciam os mesmos descontos durante o ano.
Uma vez pude comprovar isso. Entre o povo se acotovelando, não achava um livro que estava procurando. Desisti e decidi voltar pra casa. Há alguns passos dali, numa livraria com pouco movimento, achei a obra e consegui um desconto maior que o oferecido na Feira.
Nos outros anos, passei apenas a vasculhar os saldos. Mas eram as mesmas obras que estavam disponíveis nos sebos da General Câmara/Riachuelo durante o ano.
Aí me voltei para a área internacional da Feira, atrás de exemplares originais, não traduzidos. E foi só o que vi dessa vez. E me decepcionei.
Mudanças óbvias e lógicas
O patrono da Feira deste ano, Carlos Urbim, o xerife Júlio La Porta, a Secretária de Cultura do RS, Monica Leal, e Olívio Dutra no encerramento da edição de 2009. (Foto: Romulo Valente/Divulgação Feira do Livro)
A Feira do Livro costumava ser o grande momento da literatura no Estado. Editoras e grandes autores deixavam para lançar livros durante o evento, atraindo o pessoal para conhecer as novas obras. Isso terminou. Faltam novidades interessantes. Os livreiros estão optando pelos lançamentos nas grandes lojas do ramo, com fácil estacionamento e ar-condicionado, acompanhado de comidas e bebidas enquanto o autor autografa sentado confortavelmente.
Essas livrarias, aliás, foram uma das explicações para o insucesso da edição 55 do evento, além das más condições climáticas. Alguém chegou a escrever que as pessoas já não vem mais porque ir até o centro, enfrentar uma multidão, se podem comprar na Livraria Cultura com descontos até maiores que os oferecidos na Praça. Ou então pedir pela Internet e receber em casa, sem muito esforço, conseguindo até livros estrangeiros e obras raras.
Evento precisa assumir novos caminhos
Não acho que a Cultura ou a Internet tenham acabado com o status do evento. Faltam diferenciais para motivar as pessoas a esperarem até novembro para comprar seus livros na Praça. Porque não desenvolver um selo para colar no verso da capa das obras vendidas com o escrito “Este livro foi comprado na 55ª Feira do Livro de Porto Alegre”? Vai dar um valor diferente para aquela obra. Servirá como uma lembrança. Aquele livro não saiu de uma loja qualquer. Veio da maior feira de livros a céu aberto da América Latina.
Minha idéia de selo para a Feira. Colocando no livro, vai servir como lembrança do evento.
Mas é óbvio que, se os livreiros quiserem aumentar as vendas, vão ter que aumentar os descontos. Se isso significar uma queda no número de expositores, acredito que não será ruim. Hoje temos, sei lá, mil bancas que vendem os mesmos livros. Se esse número cair pela metade, não vai fazer diferença. Serão quinhentas bancas vendendo livros iguais. O aspecto positivo será o maior espaço para o público circular.
Público na Feira neste ano. Muita gente circulando, muita gente parada na frente das bancas e queda nas vendas. (Foto: Bruno Alencastro/Divulgação Feira do Livro)
O maior equívoco nestas análises da Feira está em ver o sucesso do evento pelo número de vendas. A Feira do Livro deixou de ser um evento de vendas. Passou a ser uma opção de passeio e uma grande festa para colocar a literatura em destaque. E não há nada de errado nisso, porque estimula a leitura. Se os livros da moda são os mais vendidos, não importa. O importante é que muitos dos que leem essas obras vão tomar o gosto por ler e passarão a ir atrás de escritores melhores. Mas o mais vendido em “Não-ficção” ser um livro de receitas, é brabo!
Há três anos, após uma longa viagem de trem, estava botando os pés em Rovereto, cidade na região do Trentino Alto-Adige, no norte da Itália. Pequena, é cercada por montanhas que dão início a cadeia que forma os Alpes. É desta região que parte da família migrou para o Brasil, em 1883. É ali que mora parte dos familiares que ficaram.
O que mais me marcou do trentino são suas semelhanças aos gaúchos, principalmente pelo orgulho pela sua terra e pelas batalhas que travaram. A região só faria parte da Itália, de fato, a partir de 1918. Antes, era território austríaco. As influências deste período estão presentes na arquitetura e nos nomes das cidades.
Roberto e família me receberam e me guiaram nesse retorno às origens. Ele e a esposa já haviam estado um ano antes aqui no Brasil, marcando o reencontro entre os dois ramos da família dispersos mais de cem anos antes. Roberto é uma pessoa sensacional, uma liderança nata, bonachão, bem diferente da imagem de frieza que se tem dos italianos do norte do país. E isso se reflete na família, que me permitiu ter uma experiência única naquele belo cantinho do mundo.
Vista do Torrente (arroio) Leno, no centro da cidade, com os pré-Alpes ao fundo.
O Castelo de Rovereto. As primeiras notícias sobre sua construção datam de 1354.
Nesse órgão da Igreja de São Marco, Mozart fez seu primeiro concerto em solo italiano.
“Campana dei Caduti”. Rovereto está no limite entre a grande planície Padana e o início das montanhas. Entre 1915 e 1918, num conflito particular travado entre Itália e Áustria durante a 1ª Guerra Mundial, a cidade era o ponto de confronto entre as tropas italianas, pelo plano, e austríacas, nas montanhas. Terminada a guerra, um sacerdote local tem a iniciativa de fundir o bronze de canhões de 19 nações envolvidas na 1ª GM e fazer um sino como um pedido de paz. Todos os dias, o sino é tocado, reforçando esse desejo.
O Forte Cherle, em Folgaria, cidade vizinha a Rovereto, é uma das cicatrizes da Guerra deixadas em território trentino. Ao redor do forte, se encontram outras marcas. O solo é todo irregular, com buracos deixados pelos ataques à fortificação.
Um dos túneis utilizados pelos soldados dentro do Forte Cherle. Casualmente achei uma notícia sobre uma romaria feita ao Forte todos os anos, em agosto, e nela há uma declaração do Roberto. “Não perco uma destas caminhadas de agosto. Até porque me lembram a minha infância quando, com outros rapazes, subia estas colinas trazendo vacas. Hoje encontrei aqui perto, sobre uma pedra, um escrito feito com as minhas mãos: é de 1958”. Essa pedra eu vi.
Enfim, a vista da fração de Cueli, ainda em Folgaria. Deste pequeno conjunto de casas, um senhor partiu em busca de uma vida melhor na América. Aqui, hoje, já são mais de centenas de pessoas que dele descendem.
E ainda faltou falar de Folgaria, de San Sebastiano, do belo MART, o Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Rovereto e Trento, num prédio moderno entre casas antigas, das vinícolas locais e tantas outras coisas que me fazem querer voltar lá um dia.
Eduardo Leonardi
Jornalista
25 anos eduleonardi@hotmail.com
-------
Este é o Parcialidade Total, blog sobre jornalismo, comunicação e outras histórias.