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sexta-feira, março 26, 2010

Porto Alegre 238 anos – comemoramos?

Mais um aniversário de Porto Alegre. Já são 238 anos.

Como todo bom porto-alegrense, já fui muito apaixonado pela cidade.

Exatamente: fui.

O sentimento que tinha antigamente ficou para trás, como o papel que meus conterrâneos insistem em jogar no chão. Ou ficou estagnado em algum congestionamento ou, quem sabe, soterrado sob os escombros de algum casarão antigo demolido.

Não consigo sentir esse ufanismo que tentam vender para comemorar o aniversário da capital. Não tenho visto muito para celebrar.

Uma cidade que já teve “o melhor das metrópoles com o melhor dos vilarejos”, mas que hoje reúne justamente o pior das grandes cidades com o pior das pequenas localidades.

A falta de educação do porto-alegrense é impressionante, principalmente no espaço público. Um povo que continua a reclamar de seu rio sujo enquanto atira lixo nos arroios cujas águas chegam lá.

A falta de planejamento para o futuro da cidade também. Porque uma cidade com pouco mais de 1 milhão de habitantes não deveria enfrentar tantos problemas viários. Todos sabem onde ficam os gargalos do trânsito, os problemas do transporte coletivo, mas quem tem o poder para fazer algo, não age. Assim continuamos reféns de engarrafamentos nos finais de semana, inclusive, e de ônibus lotados a qualquer dia, independente do horário.

O total desprezo pela história da cidade, sem nenhum cuidado com o patrimônio histórico do município. Restam poucos lugares onde podemos ir para encontrar as origens açorianas da capital, por exemplo.

O mais preocupante é ver o que se está pensando para o futuro da cidade. Um projeto capenga de baldeação do transporte coletivo para compensar mais uma frustrada tentativa do metrô. Alargamentos de vias são planejados, mas nada sai do papel. As ciclovias não são abrangentes. O subúrbio vai crescendo cada vez mais sem controle. A própria origem da cidade, o porto que lhe dá nome, envolvido em uma nova promessa, novamente definitiva, de revitalização, que resultará na apresentação de mais uma maquete para ser atirada em algum canto.

E ainda faltou falar de violência, saúde, educação e esse índice de tratamento de esgoto que coloca a cidade entre as piores do mundo.

Sei que esses problemas não são exclusividade de Porto Alegre, mas é justamente essa desculpa que tem freado o desenvolvimento da cidade.

Períodos ruins por agora. Outros piores pela frente.

Mas começo a me dar conta de uma coisa.

A cidade não tem culpa por ser administrada da forma que é e habitada pelas pessoas que vivem nela.

Perdão, Mui Leal e Valorosa Cidade de Porto Alegre. Espero que tenha melhor sorte no desconhecido futuro que te espera.

terça-feira, março 09, 2010

Punta del Diablo e os 1.100 km em dois dias

A proposta feita pelo tio da Tassi de rodar mais de 1.100 km em 36 horas pode parecer cansativa. Mas a ideia de passar um final de semana fora de Porto Alegre em uma pequena praia do litoral norte uruguaio, era motivadora, ainda mais pela companhia de amigos.

Assim, sábado, às 6h da manhã, partimos rumo a Punta del Diablo, balneário localizado a 30km da fronteira entre Chuí, no Brasil, e Chuy, no Uruguai.

Trânsito na BR-116 e monotonia na BR-471

O começo da viagem é sempre de movimento mais intenso. O trecho da BR-116 até Pelotas e depois na BR-392, entre Pelotas e o acesso a BR-471, é de grande movimento de caminhões, principalmente para o porto de Rio Grande.

Em compensação, ao sair da rodovia em direção a Santa Vitória do Palmar, o cenário muda completamente. A BR-471, neste trecho, é praticamente um retão único de mais de 200km, cercado de campos que parecem iguais sempre. A viagem se torna monótona e demanda do motorista o máximo de atenção, principalmente pela alta velocidade em que andam os poucos veículos que ali circulam. O trecho mais complicado são os 15km na reserva do Taim, no qual a velocidade deve ser reduzida, dando a impressão que não se está em movimento.

Chuí, o fim do mundo. E o começo de outro.

Apesar de não ser um dos lugares mais bonitos da Terra, a chegada ao Chuí é um momento de alegria, depois de duas horas só vendo lavouras e gado. A principal atração da cidade fronteiriça são, obviamente, as compras nos free-shops na longa avenida limite entre Brasil e Uruguai.

Os free-shops na avenida na fronteira

Para quem mora em Porto Alegre, não recomendaria uma viagem apenas para compras no Chuí. O custo é mais elevado que em Rivera e a variedade de produtos não é tão boa, mas já que se passa por ali, vale aproveitar. Eletrônicos não compensam. Bebidas e perfumes, sim.

Numa viagem anterior, a Tassi descobriu que vale entrar uma quadra dentro do Chuy uruguaio atrás de um dos melhores sabores locais: as media-lunas e margaritas da confeitaria localizada na esquina da calle General Artigas com a praça municipal. Ela sempre me afirmou que são as melhores do mundo, e pude comprovar que era verdade. A massa das media-lunas (parente distante do croissant) ali não é seca e tampouco muito engordurada, ficando bem leve. Fica a sugestão.

Vista do centro do Chuy uruguaio, com a praça municipal à direita. Quando tirei essa foto estava bem em frente à famosa padaria das media-lunas.

Os ônus da fronteira

Não ficamos muito tempo no Chuí. Apenas o suficiente para comprarmos os alimentos necessários para o picnic que faríamos no Parque Santa Teresa.

Eram 13h30 quando chegamos à Aduana uruguaia, para fazer os trâmites de entrada no país. Apenas carteira de identidade basta para entrar no Uruguai, mas é importante guardar o papel que entregam com o carimbo da data de entrada no país.

Mesmo ficando apenas um dia, para quem entra de carro é necessário fazer o seguro carta-verde, uma proteção contra terceiros obrigatória em países do Mercosul (para contratá-lo, basta procurar qualquer seguradora de veículos). O valor varia conforme a quantidade de dias que se fica no país. No nosso caso, foram R$ 43.

O dia de 23 horas

Passada a Aduana, ligamos o rádio do carro na FM Coronilla (102,3), para ouvir as notícias e músicas locais. Era impressionante a clareza do espanhol da locutora, de fácil compreensão. Entendi depois que se devia ao fato de ser uma rádio da região.

Mesmo assim, estranhei ao ouvir ela dizer que já eram quase três da tarde, enquanto meu relógio marcava duas. Assim descobrimos que o Uruguai ainda está em horário de verão, o que quase afetou um dos nossos planos.

Lanche no Parque Santa Teresa

Bem próximo à fronteira está o Parque Santa Teresa. Cuidado para não se confundir. Saindo do Brasil, a primeira entrada é para o Forte, com o mesmo nome. O acesso ao parque é mais adiante.

Nossa vista durante o almoço

Não se paga para entrar. Escolhemos um dos diversos caminhos existentes no parque até quase a beira do mar. Ali, isolados e com uma bela vista, fizemos nossa refeição, com media-lunas, pães, queijos, salames, vinhos e espumantes comprados na fronteira. Um momento que fez valer a pena a longa viagem pela calma do lugar.

O picnic

O Forte Santa Teresa

Saímos do Parque e voltamos pela Ruta 9 em direção ao Forte Santa Teresa. Pela sua localização, é uma construção imponente, que se destaca no cenário. Vale a visita, para conhecer como era o dia a dia dentro da fortaleza e, também, para observar as maquetes de outros fortes uruguaios, como o da Ciudad Vieja de Montevidéu. É cobrado ingresso na entrada do forte. Ficamos até as 16h ali, mas, assim que saímos, as portas se fecharam. O forte fecha às 17h. Quase fomos enganados pelo horário de verão.

O acesso ao Forte Santa Teresa






A relação de componentes diários básicos dos internos no Forte

Punta del Diablo e a maldade com o litoral gaúcho

Quando penso no litoral do Rio Grande do Sul sempre me lembro de uma tirinha do Iotti. Deus e o diabo são sócios em uma agência de publicidade. Deus está terminando de desenhar o litoral brasileiro, só faltando o RS, e o diabo pede para terminar o trabalho, de forma que Deus possa descansar. Deu no que deu.

O litoral brasileiro é todo cortado por enseadas e baías, exceto no Rio Grande do Sul, composto por uma reta só que liga Torres à Barra do Chuí. Saindo 30 km de território gaúcho, e voltam as belas orlas. E Punta del Diablo é assim.



A semelhança com o litoral gaúcho está na água do mar mais escura e fria. Aliás, bem mais fria, pela posição geográfica. Mas não havia rodado tanto para chegar ali e não tomar um banho. Foi muito bom. A areia da praia lembra a de rio, é bem diferente.

Propositalmente sem muita infra-estrutura (ruas de chão batido e esburacadas), é uma praia muito bonita, bastante frequentada por uruguaios e argentinos. As construções têm uma arquitetura peculiar, lembrando nossos improvisados “puxadinhos”. Grande parte dessas casas estão para alugar nesse período.


Além disso, a praia oferece muitos hostels e pousadas. Ficamos em uma bem simples, sem café da manhã, mas numa habitação para quatro pessoas com o preço de U$ 55, mais uma taxa de 100 pesos uruguaios (R$ 10) para uso dos lençóis e toalhas. Mas cuidado: a dona da pousada converteu esse valor para pesos uruguaios e, depois, para reais, sempre com câmbio desfavorável. Mas, no fim, pagamos R$ 122.

Um ótimo site para informações sobre a praia e hospedagem é o www.portaldeldiablo.com.uy.

A volta e o dia de 25 horas

Como precisava estar em Porto Alegre às 18h para trabalhar, começamos o retorno cedo, perto das 9h30 no horário uruguaio. Quase uma hora de viagem e chegamos na fronteira às... 9h30. Uma volta no tempo. Uma hora e meia para pegar badulaques e, às 11h, estávamos na estrada novamente. Com o movimento tranquilo, deu pra chegar em Porto a tempo ainda de tomar um banho antes de ir trabalhar. Revigorado.

quinta-feira, março 04, 2010

A história de "Los Traperos"

Da leitura do Clarín. Na Argentina existe um clube de futebol que está próximo de conseguir subir de divisão pela primeira vez em sua história. Há 34 anos jogando na Primera D (espécie de 5ª divisão dos clubes filiiados a Asociación del Fútbol Argentino.- AFA), pelo menos o Club Social y Deportivo Yupanqui nunca caiu (no caso, seria ficar um ano sem jogar em competições oficiais).

Em um primeiro momento, o nome Yupanqui pode não soar estranho para alguns, pois remete a um dos expoentes da música argentina, Atahualpa Yupanqui. Entretanto, o motivo da escolha do nome quando da fundação do Yupanqui Basket-Ball Club, em 12 de outubro de 1935, remete ao significado da palavra: “De ti falará a posteridade”.

O objetivo está sendo alcançado por um fato curioso. O Yupanqui se fez famoso por ser considerado o clube argentino com menos torcedores. Tanto que seu apelido é “Los Traperos”, uma vez que a torcida tem mais bandeiras do que gente. Um dos sócios do clube explicou a história ao La Nación, em 2001: “Nos jogos, penduram uns 15 trapos e ficam por ali umas cinco pessoas”.

O clube não tem estádio próprio e joga como local na cancha do Deportivo Riestra, ao lado do Nuevo Gasometro, estádio do San Lorenzo (ao fundo)


Inspirada nessa situação, uma agência de publicidade usou a imagem do Yupa para desenvolver uma campanha para a Coca-Cola com o mote “A equipe com menor torcida do futebol argentino, mas não com menor paixão”.



Pelo uso da imagem, o clube recebeu 25 mil pesos (à época peso e dólar eram praticamente equivalentes), investidos em obras. Cada jogador que participou também recebeu um extra de 500 pesos.



Os vídeos deram notoriedade ao clube e a torcida passou a crescer. Chegaram a contabilizar, em algumas partidas, mais de noventa pessoas apoiando o Yupanqui.

Links:

Club Social y Deportivo Yupanqui
http://www.yupanquifutbol.com.ar/sitio/index.php

“Yupanqui, el más modesto que llegó a la notoriedad”, La Nación, 14/10/2001
http://www.lanacion.com.ar/nota.asp?nota_id=342997

“Querido Ascenso - Salir de perdedor”, Clarín, 26/02/1010
http://www.clarin.com/diario/2010/02/27/um/m-02148673.htm

segunda-feira, março 01, 2010

"O segredo dos seus olhos", de Juan José Campanella

Li sobre o filme “O segredo dos seus olhos” em junho do ano passado. Chamou a atenção pela volta de uma tradicional dupla do cinema argentino, o ator Ricardo Darín e o diretor Juan José Campanella. Tal qual Mastroianni e Fellini, Darín sempre apareceu nos principais trabalhos de Campanella, como “O mesmo amor, a mesma chuva”, “O Filho da Noiva” e “Clube da Lua”.



Sobre o Darín, baita ator. Está em todas na telona de lá. É sempre o cara que a mulher mais bonita quer. No caso, Soledad Villamil. Sempre tem um “Sancho Pança” ao seu lado e esse coadjuvante, geralmente, é quem tira as risadas da plateia e ganha a simpatia de todos. Foi assim com Eduardo Blanco, Diego Peretti e, agora, com Guillermo Francella, no papel de Sandoval, o incorrigível borracho colega de Darín.

Impressionante. É tudo o que dá pra dizer sobre “O segredos dos seus olhos”. Tem sido a única palavra que fica na minha mente ao terminar de ver qualquer filme dessa onda de bons diretores do país vizinho nos últimos dez anos. São muito bons na crítica política e no suspense e, quase sempre, ao fazer as duas coisas juntas. Neste filme, sobrou também para o sistema judicial do país.

Sugiro a quem gostou de “Nove Rainhas” e “O Sinal”, que assista “O segredo...”, que dia 7 de março concorre ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Até por essa indicação o filme está, pelo menos nessa semana, em um bom número de salas em Porto Alegre.

quarta-feira, fevereiro 03, 2010

Filme: Invictus

Desde que li na orelha do livro "Conquistando o Inimigo: Nelson Mandela e o jogo que uniu a África do Sul", de John Carlin (escrevi sobre ele aqui no blog), que a obra estava sendo transformada em um filme, fiquei esperando o lançamento. Por mais que acreditasse que, por ser um filme sobre rugby, não passaria no Brasil. E a mudança da previsão da estreia de dezembro pra janeiro só aumentou minha desconfiança.


Mas na última sexta entrou em cartaz Invictus, dirigido por Clint Eastwood e tendo Matt Damon como o capitão da seleção sul-africana, François Pienaar, e Morgan Freeman no papel de Nelson Mandela. As críticas da véspera não eram as melhores: repleto de chavões, filme meloso, Eastwood perdeu a oportunidade de fazer um grande filme e até alguém sugerindo que deveria ter um locutor do esporte explicando o que acontecia durante o jogo, porque os brasileiros não conhecem rugby!

Não dei muita bola. Sábado peguei a Tassi, botei minha camiseta da Copa do Mundo de rugby que ela me deu de Natal e nos mandamos pro cinema.

Se o filme é cheio de frases feitas? De certa forma sim. Sempre foi o jeito de Mandela falar, usando ditos com alguma lição.

Pra mim, Invictus pecou muito em abordar pouco a questão política desse período de transição da África do Sul e se focar muito nos problemas da vida pessoal de Mandela (o isolamento da família). As poucas que se focam nos esforços do presidente em evitar uma guerra civil, muitas vezes indo contra o seu próprio grupo, são as melhores. Enquanto ele era questionado em sua liderança frente ao país, o capitão dos Springboks (apelido da seleção local de rugby), Pienaar, era questionado por seus próprios companheiros de time. E ambos precisavam fazer valer a tarefa que tinham, de guiar seus comandados rumo ao objetivo maior: do primeiro, unir o país. Do segundo, conquistar a Copa do Mundo de Rugby de 1995, quando seriam locais.

Freeman e Damon e os originais Mandela e Pienaar

É justamente durante a disputa do torneio que aparece, para mim, o destaque do filme, as cenas de jogo. Talvez porque eu goste do esporte. As cenas me pareceram bem reais, dá a impressão de se estar vendo um jogo mesmo, na tela grande, e dentro do campo. Muito bom.

Mas tem algumas ressalvas. Eastwood usou de forma exagerada as imagens de baixo dos scrums (clique aqui para saber o que é isso), mas serve para o filme. Afinal, é um dos momentos do jogo no qual a coletividade se faz mais necessária: oito jogadores juntos tentando obter a posse da bola "empurrando" um grupo adversário. Outra é o uso em demasia de câmera lenta nos instantes finais da última partida. Seria uma tentiva de clímax, mas cansa.

De toda a forma, saí satisfeito. Mesmo quem não entende o esporte vai compreender bem. Quem sabe até se sinta tentado a acompanhar mais sobre a modalidade, a segunda mais praticada em todo o mundo, e que vai voltar à Olímpiada em 2016, no Rio.

Mas pra quem quiser entender um pouco mais sobre aquele momento de transição da África do Sul, leia o livro. Principalmente os colegas jornalistas que irão para lá cobrir o Mundial de futebol deste ano. Vai reduzir, e muito, as chances de falar alguma besteira.

Ponto final

Falando sobre rugby, sábado, dia 6, começa o principal torneio entre seleções europeias do esporte: o Six Nations. A Irlanda vai defender o título conquistado em 2009. O site da ESPN especializado em rugby, Scrum.com, organizou uma fantasy league pra competição. Lendo aqui e ali, já escalei meus quinze, na brincadeira. Meu time ficou quase um British and Irish Lions (seleção especial com jogadores ingleses, galeses, escoceces e irlandeses): G Jenkins (GAL), M Castrogiovanni (ITA), Hartley (ING), P O'Connell (IRL), S Shaw (ING), J Heaslip (ING), N Easter (ING), T Duasautoir (FRA), C Cusiter (ESC), J Wilkinson (ENG, vai ser o kicker), B O'Driscoll (IRE), J Roberts (GAL), R Kearney (IRE), S Williams (GAL) e L Halfpenny (GAL). Vamos ver se em cinco anos acompanhando o esporte já aprendi alguma coisa.